A posse de Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, marcou a entrada dos primeiros representantes de povos originários no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, ligado ao Ministério das Relações Exteriores. A cerimônia ocorreu no Palácio Itamaraty, em Brasília, e foi acompanhada por declarações sobre a presença de grupos historicamente excluídos na diplomacia brasileira.
Antes de iniciar a atuação diplomática, os dois participarão da turma do curso prevista para começar em 2026 e terminar em 2028. O grupo tem cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
Discursos durante a cerimônia
A ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, afirmou que o corpo diplomático deve refletir a diversidade da população brasileira. Segundo ela, a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas na instituição representa um ato de resistência diante de ameaças à democracia e aos direitos reconhecidos na Constituição de 1988.
“Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou a ministra.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, disse que a posse materializa o conceito de “Aldear o Estado”, associado à inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país. Ele também afirmou que o momento representa um ganho para a nação e para o Estado brasileiro.
Convidado de honra, o escritor e intelectual indígena Ailton Krenak celebrou a presença de famílias e crianças indígenas na solenidade. Para ele, essa participação rompe com a frieza institucional. Krenak também desejou que os novos diplomatas fossem capazes de “exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”.
Perfil da nova turma
Além dos dois indígenas, a turma reúne 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência e uma pessoa quilombola. As mulheres representam 45% dos ingressantes, proporção apresentada como a maior participação feminina da história do curso. Segundo as informações divulgadas, quase metade dos alunos pertence a grupos sub-representados na diplomacia brasileira.
O processo seletivo contou com ações afirmativas relacionadas a uma política estabelecida no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e a reivindicações de movimentos de defesa dos direitos humanos. Entre as medidas citadas pelo Ministério das Relações Exteriores está a ampliação do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
Trajetórias de Marcelo e Idjahure
Natural de Campina Grande, na Paraíba, Marcelo Kariri Menezes é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos e também é autor de um livro infanto-juvenil.
Durante a cerimônia, Marcelo contou que havia uma tradição no local onde sua família vivia segundo a qual pessoas como ele enlouqueceriam se estudassem e deveriam permanecer em trabalhos braçais. Ele afirmou que sua mãe viu na educação “uma porta para a vida”.
Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e mestre na mesma área pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Ao comentar a entrada no Itamaraty, Idjahure disse que o momento envolve a consciência sobre uma história de exclusão e tutela e a busca por um futuro em que a diversidade étnica integre o Estado. Ele é filho do artista Macsuara Kadiwéu, identificado na divulgação como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos








