segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Gama (DF) reúne lugares que ajudam a contar a história de Brasília

Antes de se tornar uma das principais regiões administrativas do Distrito Federal, o Gama era formado por fazendas, caminhos rurais e áreas ligadas ao processo de construção de Brasília. Conheça lugares que ajudam a preservar essa história.

O Gama, no Distrito Federal, reúne lugares que ajudam a explicar a formação de Brasília para além do Plano Piloto. A região nasceu em uma área ocupada por antigas fazendas, caminhos utilizados antes da construção da capital e espaços que participaram diretamente da implantação do novo Distrito Federal.

Entre os principais pontos ligados a essa trajetória estão o Catetinho, a antiga Fazenda do Gama, as áreas rurais de Ponte Alta, o Estádio Walmir Campelo Bezerra, conhecido como Bezerrão, e equipamentos culturais que preservam lembranças de diferentes gerações de moradores.

A história do Gama começa antes da inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. A região já era conhecida por suas propriedades rurais, cursos d’água e caminhos que conectavam o território do Planalto Central. Com a transferência da capital para o interior do país, esse espaço passou a integrar a área estratégica da nova sede do governo federal.

Das antigas fazendas à construção da capital

O território que hoje corresponde ao Gama esteve associado a propriedades rurais como as fazendas Gama, Ponte Alta, Ipê e Alagado. Essas áreas faziam parte de uma paisagem marcada por cerrado, nascentes, matas de galeria e atividades agropecuárias.

Registros históricos indicam que a presença humana na região é anterior à ocupação colonial. Estudos reunidos em publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional mencionam vestígios arqueológicos e pinturas rupestres associados a populações indígenas que viveram no território antes da chegada dos colonizadores. (portal.iphan.gov.br)

Durante o período colonial, a área também esteve ligada às rotas percorridas por bandeirantes e viajantes em direção às regiões de mineração. A origem do nome Gama é associada ao padre Luís da Gama Mendonça, que teria atuado na região de Santa Luzia, atual Luziânia, em Goiás. Como ocorre com outros episódios da história do Planalto Central, há diferentes versões para a formação do nome e para os primeiros núcleos de ocupação.

Ao longo do século XIX, as fazendas da região abasteciam povoados próximos e mantinham uma população rural dispersa. No Censo Experimental de Brasília de 1959, realizado antes da inauguração da capital, foram registrados cerca de mil moradores na área que viria a formar o Gama, distribuídos principalmente entre as fazendas Gama, Ponte Alta e Ipê. (codeplan.df.gov.br)

O Catetinho e a Fazenda do Gama

O lugar mais diretamente ligado à construção de Brasília no território do Gama é o Catetinho. A residência provisória foi erguida em 1956, na antiga Fazenda do Gama, para que o presidente Juscelino Kubitschek pudesse acompanhar de perto o andamento das obras da nova capital.

Construído em madeira em poucos dias, o edifício funcionou como a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek no futuro Distrito Federal. O nome Catetinho fazia referência ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede do governo federal. O imóvel foi inaugurado em 10 de novembro de 1956 e se tornou um dos primeiros marcos arquitetônicos da construção de Brasília. (atom.arquivopublico.df.gov.br)

A escolha da área não foi casual. A Fazenda do Gama tinha acesso a água e estava próxima das frentes de trabalho que avançavam pelo Planalto Central. A mata de galeria existente no local também forneceu parte da madeira utilizada na construção da residência provisória, segundo registros do Arquivo Público do Distrito Federal.

O Catetinho é importante porque preserva uma etapa anterior à Brasília monumental projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Antes dos palácios, dos ministérios e dos grandes eixos urbanos, a capital começou com alojamentos, estradas de terra, canteiros de obras e estruturas provisórias como aquela residência presidencial.

O conjunto histórico relacionado à Fazenda do Gama também inclui referências à antiga casa-sede da propriedade. A chamada Casa Velha da Fazenda Gama é mencionada em estudos sobre os antecedentes da nova capital e ajuda a lembrar que Brasília foi construída sobre um território que já tinha moradores, propriedades e formas próprias de ocupação. (revistas.usp.br)

O nascimento do Gama como cidade

O Gama foi fundado em 12 de outubro de 1960, poucos meses depois da inauguração de Brasília. A criação do núcleo urbano esteve ligada à necessidade de acomodar famílias de trabalhadores que participavam da construção da capital ou que foram transferidas de áreas ocupadas no Plano Piloto.

Entre os grupos deslocados estavam moradores da região da Barragem do Paranoá, da Vila Amaury e de outras áreas que seriam modificadas ou desocupadas durante a consolidação de Brasília. O Gama, assim como outras cidades do Distrito Federal, surgiu como parte da política de formação de núcleos urbanos afastados do centro administrativo.

O planejamento inicial ficou sob responsabilidade de técnicos ligados à administração do Distrito Federal e à Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap. A cidade foi organizada em setores e quadras, com áreas residenciais, comércio, serviços públicos e espaços destinados a equipamentos comunitários.

A organização administrativa do Distrito Federal passou por mudanças ao longo das décadas. Em 1964, a Lei nº 4.545 reestruturou administrativamente o território. Mais tarde, em 1989, o Gama passou a ser reconhecido formalmente como região administrativa pela Lei nº 49 e pelo Decreto nº 11.921. (cl.df.gov.br)

Esse processo mostra que o Gama não foi apenas um bairro planejado para receber trabalhadores. A cidade desenvolveu identidade própria, com comércio, manifestações culturais, vida comunitária, tradições religiosas e uma relação intensa com as áreas rurais de seu entorno.

Ponte Alta preserva a dimensão rural da região

As áreas de Ponte Alta, no Gama, ajudam a preservar parte da paisagem rural que existia antes da urbanização acelerada do Distrito Federal. Chácaras, estradas, córregos e propriedades de produção agrícola convivem com a expansão urbana e revelam uma face menos conhecida da capital.

A região de Ponte Alta também lembra que o Gama não se resume ao núcleo residencial criado em 1960. A Região Administrativa é formada por áreas urbanas e rurais, com diferentes formas de ocupação e vínculos históricos. Em alguns pontos, permanecem referências a antigas fazendas e a caminhos utilizados antes da construção de Brasília.

Esse patrimônio é principalmente paisagístico e afetivo. Nem todos os locais têm estruturas abertas à visitação ou sinalização histórica, mas eles fazem parte da memória territorial do Gama. A permanência dessas áreas ajuda a compreender como o processo de urbanização modificou o espaço sem eliminar completamente suas características originais.

O Bezerrão e a memória esportiva

Se o Catetinho representa os primeiros anos da construção de Brasília, o Estádio Walmir Campelo Bezerra, o Bezerrão, simboliza a consolidação da vida comunitária do Gama. Inaugurado em 1977, o estádio se tornou um dos principais espaços esportivos e culturais da região.

A construção de um estádio próprio respondia a uma demanda dos clubes locais, que antes dependiam de campos e arenas fora da cidade. O equipamento passou a receber partidas de equipes do Distrito Federal e se tornou a casa da Sociedade Esportiva do Gama, fundada em 1975.

O clube ajudou a fortalecer a identidade esportiva da região. A Sociedade Esportiva do Gama conquistou títulos do Campeonato Brasiliense e alcançou projeção nacional ao disputar a Série A do Campeonato Brasileiro em 1999, depois de vencer a Série B de 1998.

O Bezerrão também ganhou visibilidade nacional em 2008, quando recebeu um amistoso entre as seleções de Brasil e Portugal. A arena foi ainda utilizada em competições de categorias de base, incluindo a Copa do Mundo Sub-17 de 2019. (ffdf.com.br)

Mais do que um estádio, o Bezerrão funciona como um lugar de memória coletiva. Arquibancadas, campeonatos, shows e encontros comunitários fizeram do espaço uma referência para diferentes gerações de moradores.

Cinemas, praças e espaços de convivência

A história do Gama também pode ser contada por espaços que não foram criados como monumentos, mas se tornaram importantes para a vida cultural da cidade. Entre eles está o Cine Itapuã, lembrado por moradores como um ponto de encontro de artistas, estudantes e jovens nas décadas de crescimento da região.

O cinema recebeu atividades ligadas à música, ao teatro, à literatura, às artes visuais e ao audiovisual. Mesmo com o encerramento de suas atividades, o local permanece associado à memória cultural do Gama. O Cine Amazonas, outro espaço citado em registros de memória da cidade, também integrou esse período de expansão do lazer e da cultura local. (memoriadogama.com.br)

Praças, feiras e áreas comerciais cumprem função semelhante. A Feira Permanente do Gama, além de sua importância econômica, reúne práticas de comércio popular e convivência que ajudam a explicar a formação da identidade urbana da cidade.

Esses espaços mostram que a história de Brasília não está apenas em edifícios oficiais ou obras reconhecidas como patrimônio. Ela também aparece em cinemas de bairro, campos de futebol, feiras, igrejas, praças e lugares mantidos pela lembrança dos moradores.

Uma cidade ligada à história do Distrito Federal

O Gama ocupa uma posição singular na história de Brasília. A região reúne vestígios de um território rural anterior à capital, marcas da construção iniciada no governo Juscelino Kubitschek e a trajetória de uma cidade formada por trabalhadores e famílias transferidas para os novos núcleos urbanos.

O Catetinho recorda o período em que Brasília ainda era um canteiro de obras. A antiga Fazenda do Gama preserva a ligação com a ocupação rural que antecedeu a capital. Ponte Alta mantém paisagens e referências do campo. O Bezerrão representa a força do esporte e da identidade local. Os cinemas, as feiras e as praças revelam a construção cotidiana da vida urbana.

Conhecer esses lugares é compreender que Brasília foi formada por várias camadas históricas. A capital planejada nasceu junto de comunidades, fazendas, caminhos e cidades que participaram de sua construção. Nesse conjunto, o Gama ocupa um dos capítulos mais importantes da história do Distrito Federal.