Santa Maria (DF) ganhou espaço no mapa de Brasília a partir de uma política de ocupação urbana voltada principalmente ao atendimento de famílias de baixa renda. Mais de três décadas depois, a região administrativa se consolidou como uma das áreas mais populosas do Distrito Federal e passou a desempenhar funções importantes na moradia, no comércio, na indústria e na logística.
Localizada na porção sul do Distrito Federal, Santa Maria é identificada oficialmente como Região Administrativa XIII. A área fica próxima ao Gama, ao Park Way, ao Jardim Botânico e aos municípios goianos que integram a região metropolitana de Brasília. Essa posição contribui para os deslocamentos diários de moradores e trabalhadores entre o Distrito Federal e cidades como Valparaíso de Goiás, Novo Gama e Cidade Ocidental.
De acordo com a PDAD-A 2024, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, Santa Maria tinha população urbana estimada em 121.635 pessoas. O levantamento considera informações disponíveis até 3 de julho de 2025 e aponta idade média de 33,1 anos entre os moradores.
Da área rural à criação da região administrativa
Antes de se tornar uma cidade integrada à estrutura administrativa de Brasília, Santa Maria fazia parte da área rural do Gama. O território era ocupado por núcleos rurais, áreas de preservação, instalações militares e propriedades ligadas à produção agrícola.
A história mais antiga da região está relacionada à ocupação do território que hoje forma o Distrito Federal e parte do Entorno. O espaço pertencia ao estado de Goiás antes da criação de Brasília e já apresentava ocupação desde o século XVIII. Estudos reunidos pelo IPEDF citam referências à formação do Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia, em 1746, além da ocupação de áreas próximas aos rios Santa Maria, Alagados, Saia Velha e Ponte Alta entre 1763 e 1778.
Com a construção e a consolidação da capital federal, o crescimento populacional trouxe novas demandas por moradia. Na década de 1990, o Governo do Distrito Federal criou um programa de assentamento destinado a famílias de baixa renda e à reorganização de ocupações dispersas ou irregulares em diferentes pontos do território.
Foi nesse contexto que Santa Maria começou a ser estruturada como núcleo urbano. A criação da região administrativa ocorreu por meio da Lei nº 348, de 4 de novembro de 1992, posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 14.604, de 10 de fevereiro de 1993. A Administração Regional foi criada pela Lei nº 423, de 23 de março de 1993.
A data de 10 de fevereiro passou a ser associada ao aniversário oficial da cidade. A formação urbana inicial ocorreu nas quadras 200 e nas quadras 308, 309 e 310. Em seguida, a ocupação avançou para outras áreas planejadas, acompanhando a abertura de vias, a instalação de serviços e a construção de equipamentos públicos.
Urbanização planejada e expansão dos bairros
O projeto urbano de Santa Maria foi organizado em torno de dois eixos principais: as avenidas Alagado e Santa Maria. Paralelas entre si, as vias funcionam como referências de circulação e concentram parte das atividades comerciais e dos serviços locais.
A cidade foi dividida em setores e áreas residenciais que passaram a reunir diferentes perfis de ocupação. Entre eles estão Santa Maria Norte, Santa Maria Sul, Santa Maria Centro, o Residencial Santos Dumont, o Setor Habitacional Ribeirão, conhecido como Condomínio Porto Rico, o Setor Habitacional Meireles, também chamado de Total Ville, além da Cidade Nova e do Polo de Desenvolvimento Juscelino Kubitschek, o Polo JK.
O crescimento não ocorreu de forma uniforme. As primeiras áreas receberam infraestrutura básica gradualmente, enquanto novos parcelamentos e condomínios ampliaram a mancha urbana. A expansão trouxe escolas, unidades de saúde, comércio, transporte, espaços esportivos e equipamentos de atendimento social, mas também aumentou a necessidade de investimentos permanentes em mobilidade, saneamento, drenagem e urbanização.
Em 2024, a pesquisa do IPEDF registrou 46.953 domicílios ocupados na região. As casas representavam 83,6% das moradias, enquanto os apartamentos correspondiam a 16,4%. No mesmo levantamento, 66,6% dos domicílios foram classificados como próprios e já quitados, e 23,2% estavam alugados.
Uma população formada por diferentes origens
A identidade de Santa Maria foi construída por moradores que chegaram ao Distrito Federal em diferentes momentos e por famílias nascidas na própria capital. Segundo a PDAD-A 2024, 61,4% dos residentes declararam ter nascido no Distrito Federal.
Entre os moradores que vieram de outras unidades da Federação, o Maranhão apareceu com o maior percentual individual de origem, com 7,3%. Considerando as grandes regiões brasileiras, o Nordeste concentrava 63,4% dos residentes não nascidos no Distrito Federal.
Esses dados ajudam a explicar a diversidade cultural da região. A cidade reúne famílias com trajetórias ligadas à migração para Brasília, ao trabalho na construção civil, ao serviço público, ao comércio, à indústria e às atividades de transporte. O tempo médio de moradia no Distrito Federal era de 25,7 anos, enquanto o tempo médio na própria região administrativa chegava a 16,6 anos.
A permanência prolongada de muitas famílias contribuiu para a criação de redes comunitárias, associações, grupos religiosos, iniciativas culturais e atividades comerciais próprias. Santa Maria deixou de ser apenas uma área de expansão habitacional e passou a desenvolver uma vida urbana com referências e dinâmicas locais.
O papel do Polo JK na economia
Um dos principais fatores que ampliaram a importância de Santa Maria foi a implantação do Polo de Desenvolvimento Juscelino Kubitschek. Localizado nas proximidades da BR-040, o polo reúne empresas com atuação industrial, comercial e logística.
A localização é estratégica porque conecta a região sul do Distrito Federal aos municípios do Entorno e às áreas centrais de Brasília. A BR-040 funciona como um dos principais corredores rodoviários de ligação entre a capital federal, Goiás e outras áreas do país. Esse eixo favorece a circulação de mercadorias, a instalação de centros de distribuição e a atividade de empresas que dependem do transporte rodoviário.
O Polo JK também contribuiu para reduzir a dependência exclusiva do Plano Piloto e de outras regiões centrais na oferta de empregos. Embora parte dos moradores ainda se desloque diariamente para trabalhar em outras áreas do Distrito Federal, o desenvolvimento de atividades econômicas em Santa Maria ampliou a presença de empregos e serviços próximos às áreas residenciais.
O crescimento econômico, porém, não elimina os desafios urbanos. A expansão de empresas e moradias exige planejamento para evitar conflitos entre tráfego pesado, circulação de ônibus, deslocamentos de pedestres e ocupação residencial. Também demanda fiscalização ambiental, manutenção de vias e melhoria da conexão com o transporte público.
Deslocamentos e integração com Brasília
Santa Maria mantém uma relação intensa com o restante do Distrito Federal e com os municípios goianos vizinhos. A proximidade com o Gama, com a região da Saída Sul e com a BR-040 facilita a integração regional, mas também aumenta a pressão sobre as principais vias nos horários de pico.
A pesquisa do IPEDF mostra que a população se desloca para diferentes regiões em busca de trabalho, estudo, saúde e serviços especializados. Na área da saúde, Santa Maria foi a última localidade procurada por 53,8% dos entrevistados que informaram ter realizado atendimento. O Plano Piloto apareceu em seguida, com 20,7%, e o Gama, com 11,6%.
Na educação, o levantamento apontou que 48,3% dos estudantes utilizavam o deslocamento a pé entre a casa e a escola. O ônibus era o principal meio para 26,9%, enquanto o automóvel correspondia a 13,9%. Os números refletem a presença de escolas nas áreas residenciais, mas também mostram a importância da mobilidade para uma população numerosa e distribuída em diferentes setores.
Áreas ambientais e paisagem do Cerrado
Apesar da urbanização, Santa Maria conserva áreas de importância ambiental e paisagens características do Cerrado. A região possui áreas de vegetação nativa, cursos d’água, parques e terrenos associados a instalações militares e núcleos rurais.
Entre os espaços citados no diagnóstico do IPEDF estão o Parque Ecológico de Santa Maria e o Parque Recreativo do Gama, conhecido como Prainha. A região também está relacionada às sub-bacias dos rios Alagado, Santa Maria, Saia Velha e Santana.
A presença desses recursos naturais influencia a ocupação do território e impõe limites ao crescimento urbano. A preservação das áreas de cerrado, das matas ciliares e das nascentes é importante tanto para a proteção da biodiversidade quanto para a segurança hídrica e a redução de impactos causados por erosão, assoreamento e impermeabilização do solo.
O abastecimento de água da região está ligado ao sistema do Rio Descoberto, com tratamento realizado na Estação de Tratamento de Água Rio Descoberto. A relação entre expansão urbana, proteção ambiental e disponibilidade de água é um dos temas permanentes no planejamento de Santa Maria e de outras regiões administrativas do Distrito Federal.
Patrimônio, lazer e identidade local
Além da função residencial e econômica, Santa Maria reúne equipamentos de esporte, cultura e convivência. O Centro Olímpico e os serviços de convivência e fortalecimento de vínculos são exemplos de estruturas voltadas à prática esportiva, ao atendimento social e à integração comunitária.
Entre os pontos conhecidos da região está o Monumento Solarius, uma escultura de grandes dimensões popularmente chamada de “Chifrudo”. A obra se tornou uma referência visual da área e integra o conjunto de elementos que ajudam a formar a identidade de Santa Maria.
A memória local também está presente nas avenidas, nas quadras, nas feiras, nas igrejas, nos espaços esportivos e nas áreas comerciais que cresceram junto com a cidade. Como ocorre em outras regiões de Brasília, a construção da identidade urbana depende da combinação entre planejamento estatal, iniciativa dos moradores e criação de espaços de convivência.
O lugar de Santa Maria no Distrito Federal
A trajetória de Santa Maria mostra como Brasília continuou a se transformar depois da inauguração da capital. A região nasceu de uma política de assentamento, cresceu com a expansão habitacional e passou a exercer funções econômicas e logísticas que ultrapassam os limites do bairro residencial.
Com mais de 121 mil moradores, uma população relativamente jovem, conexão com importantes rodovias e presença do Polo JK, Santa Maria ocupa posição relevante na porção sul do Distrito Federal. Ao mesmo tempo, a região ainda precisa lidar com desafios comuns às áreas de crescimento acelerado: mobilidade, oferta de serviços públicos, urbanização de novos setores, preservação ambiental e geração de empregos.
O destaque alcançado por Santa Maria entre as regiões de Brasília está, portanto, ligado à combinação de história, escala populacional, localização e capacidade de transformação. A cidade deixou de ser apenas um núcleo criado para acomodar famílias e se consolidou como uma das principais referências urbanas do sul do Distrito Federal.



