Quando se fala em Distrito Federal, a imagem mais comum é a de Brasília planejada, dos monumentos modernistas e dos grandes eixos urbanos. A Fercal apresenta outra dimensão do território brasiliense. Localizada na porção norte do DF, a região reúne comunidades rurais, áreas de produção mineral, manifestações culturais e paisagens formadas por cachoeiras, grutas, riachos e trilhas.
A história da Fercal está ligada ao processo de ocupação que antecedeu e acompanhou a construção da nova capital. A exploração de recursos naturais atraiu empresas e trabalhadores para a área antes mesmo da inauguração de Brasília. Décadas depois, a região continua marcada pela atividade mineradora, mas também passou a ser reconhecida por sua identidade comunitária, pela produção agrícola e pelo potencial de turismo rural e de natureza.
Em 2026, a Fercal completou 70 anos de história, considerando a data de 11 de setembro de 1956 adotada oficialmente como referência para o aniversário da região. A celebração reforçou a memória de uma comunidade formada por diferentes gerações e por pessoas vindas de várias partes do país. (cdp.creadf.org.br)
Uma história anterior à inauguração de Brasília
A ocupação da Fercal ganhou impulso com a instalação de empresas interessadas na extração de recursos naturais necessários às obras de implantação da capital. Estudos ambientais do Distrito Federal registram que a região começou a se desenvolver antes de Brasília, em uma área de importância mineral e econômica situada às margens da Área de Proteção Ambiental de Cafuringa. (ibram.df.gov.br)
O calcário foi um dos principais recursos responsáveis pela transformação da paisagem econômica local. A extração de cal e brita abriu espaço, posteriormente, para a fabricação de cimento e de outros materiais utilizados na construção civil. Esse processo ocorreu principalmente entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970, quando a indústria cimenteira ganhou força no país.
O nome Fercal está associado à Sociedade Fertilizantes Calcáreos Ltda., empresa instalada na região e vinculada à exploração do calcário. Documentos de planejamento do Distrito Federal relacionam a instalação da empresa ao ano de 1961. A atividade mineradora atraiu trabalhadores, estimulou a abertura de serviços e contribuiu para a formação dos núcleos habitacionais que hoje compõem a região.
Da área de mineração à Região Administrativa
Durante décadas, a Fercal esteve vinculada administrativamente a outras áreas do Distrito Federal. A mudança ocorreu em 29 de janeiro de 2012, quando a Lei nº 4.745 criou a Região Administrativa da Fercal, desmembrada de Sobradinho II. A medida transformou a localidade na 31ª região administrativa do DF. (geoservicos.ide.df.gov.br)
A criação da região administrativa não apagou a diversidade interna da Fercal. O território é formado por comunidades com trajetórias próprias, muitas delas desenvolvidas no entorno das fábricas, das áreas de extração mineral e das estradas que conectam a região a outras partes do Distrito Federal.
Levantamentos da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios apontam a existência de 14 comunidades habitacionais: Rua do Mato, Queima Lençol, Bananal, Engenho Velho, Alto Bela Vista, Fercal Leste, Fercal Oeste, Boa Vista, Caatingueiro, Ribeirão, Lobeiral, Projeto de Assentamento Contagem, Córrego do Ouro e Sonhém de Cima. (codeplan.df.gov.br)
A força da indústria do cimento
A mineração continua sendo uma das principais marcas econômicas da Fercal. A região abriga duas grandes fábricas de cimento, além de usinas de asfalto e outras atividades relacionadas à exploração e ao beneficiamento de recursos minerais.
Segundo a PDAD 2021, a Ciplan, fundada em 1968, está entre as principais produtoras de cimento do Centro-Oeste. A mesma pesquisa registra a presença de uma unidade da Votorantim Cimentos, fundada em 1972, e destaca a concentração de empresas ligadas ao setor na região. (codeplan.df.gov.br)
Essa estrutura produtiva influencia a vida econômica local de diferentes maneiras. Além dos empregos diretamente ligados às fábricas e às mineradoras, a atividade movimenta serviços de manutenção, transporte, comércio e fornecimento de equipamentos. A presença industrial também ajuda a explicar por que a Fercal ocupa uma posição particular no Distrito Federal: é uma região com características rurais e comunitárias, mas que abriga uma cadeia produtiva de escala relevante.
Ao mesmo tempo, a mineração impõe desafios ambientais e urbanos. A convivência entre moradias, estradas, áreas de extração e unidades industriais exige fiscalização, planejamento e acompanhamento dos impactos sobre o ar, o solo, a água e a circulação de veículos pesados. A presença da indústria, portanto, faz parte da identidade econômica da Fercal, mas não resume a experiência de quem vive no território.
Comunidades que preservam tradições
Uma das características que diferenciam a Fercal de outras áreas do Distrito Federal é a força das relações comunitárias. A região preserva festas, manifestações religiosas e práticas culturais transmitidas entre gerações.
Entre as expressões citadas em documentos e iniciativas de valorização do território estão a Folia de Reis, a Folia do Divino, a catira, as cavalgadas e a Festa da Pamonha. Essas manifestações estão relacionadas à formação rural da Fercal e ao encontro de famílias que chegaram à região em diferentes momentos da história.
A cultura local também funciona como forma de preservar a memória do território. Em vez de tratar a Fercal apenas como uma área de passagem ou de produção mineral, as tradições ajudam a revelar os vínculos entre moradores, comunidades e paisagens. A identidade regional aparece nas festas, na música, na religiosidade, na culinária e nas atividades coletivas.
O perfil da população também reflete essa trajetória de formação. Dados da PDAD-A 2024 indicam que 57,9% dos moradores declararam ter nascido no Distrito Federal. Entre os residentes que nasceram fora do DF, o Nordeste aparece como a principal região de origem, responsável por 66,1% desse grupo. (pdad.ipe.df.gov.br)
Produção rural e paisagens naturais
A Fercal também preserva áreas de produção agrícola e propriedades rurais. A atividade contribui para o abastecimento de feiras e para a diversificação da economia local, ao lado da mineração e dos serviços. Em alguns pontos, a produção rural se combina a iniciativas de visitação, gastronomia e experiências ligadas ao campo.
O relevo e a presença de recursos hídricos ampliam o potencial natural da região. Pequenas cachoeiras, grutas, cavernas, riachos e trilhas aparecem entre os elementos destacados em estudos sobre a Fercal. Essas áreas ajudam a compor uma paisagem diferente da imagem mais conhecida de Brasília, marcada por avenidas largas, edifícios públicos e áreas urbanizadas.
O potencial turístico é apresentado principalmente em segmentos como turismo rural, cultural, histórico, religioso, científico e de aventura. Uma proposta discutida na Câmara Legislativa do Distrito Federal prevê a criação da Rota 205, com o objetivo de integrar atrações, empreendimentos e manifestações culturais da região. A proposta foi encaminhada para análise legislativa e não deve ser confundida, por si só, com a implantação definitiva de uma rota turística. (cl.df.gov.br)
O reconhecimento do ecoturismo
Em 2 de dezembro de 2025, a Lei nº 7.775 instituiu a Região Administrativa da Fercal como Patrimônio Distrital para a prática do ecoturismo. A norma define que o desenvolvimento da atividade deve respeitar a legislação ambiental e utilizar de forma sustentável os patrimônios natural, histórico e cultural, com atenção ao bem-estar das populações envolvidas. (cl.df.gov.br)
O reconhecimento legal amplia a visibilidade da Fercal, mas também estabelece uma responsabilidade. O crescimento de visitas, eventos e empreendimentos turísticos depende de planejamento, infraestrutura adequada, proteção ambiental e participação dos moradores. Sem esses cuidados, o aumento da circulação pode pressionar áreas naturais e alterar justamente os elementos que tornam a região atrativa.
O turismo, nesse contexto, aparece menos como substituto imediato da mineração e mais como possibilidade de diversificação econômica. A valorização de trilhas, festas, propriedades rurais, produtos locais e patrimônios culturais pode criar novas oportunidades sem desconsiderar as atividades que já sustentam a economia regional.
Um retrato diferente de Brasília
A Fercal ajuda a mostrar que o Distrito Federal é mais amplo e diverso do que o conjunto urbanístico de Brasília. Sua história reúne mineração, migração, trabalho rural, indústria, religiosidade popular e preservação de paisagens naturais.
O território também evidencia as contradições do desenvolvimento regional. A mesma área que contribuiu para fornecer materiais à construção da capital enfrenta os efeitos da atividade industrial e da expansão urbana. Ao lado de fábricas e vias de circulação, permanecem comunidades que mantêm tradições, propriedades rurais e formas de convivência construídas ao longo de décadas.
Conhecer a Fercal é, portanto, compreender uma parte menos conhecida da formação do Distrito Federal. A região não é apenas um espaço associado ao cimento e ao calcário. É também um lugar de memória, pertencimento e diversidade, onde a história da construção de Brasília se encontra com a vida cotidiana de comunidades que continuam definindo seus próprios caminhos.