A história da Cidade Estrutural está ligada à expansão de Brasília, à chegada de trabalhadores em busca de renda e à atividade dos catadores de materiais recicláveis. A região se formou próxima ao antigo depósito de resíduos do Distrito Federal e à rodovia que recebeu o mesmo nome da cidade: a Via Estrutural, oficialmente DF-095.
Ao longo de décadas, a área deixou de ser uma ocupação composta por barracos próximos ao lixão e passou a integrar a estrutura administrativa do Distrito Federal. O processo foi acompanhado por disputas fundiárias, tentativas de remoção, implantação de serviços públicos, regularização urbana e mudanças na política de gestão de resíduos.
O fechamento do antigo lixão, em 20 de janeiro de 2018, tornou-se um dos principais marcos dessa trajetória. A medida encerrou o recebimento de resíduos domiciliares no local, mas também alterou a rotina de centenas de trabalhadores que dependiam da separação de materiais para sobreviver.
Como surgiu a ocupação da Estrutural
A ocupação da área começou a se consolidar a partir da presença de pessoas que trabalhavam como catadoras de materiais recicláveis no depósito de lixo do Distrito Federal. O local atraía trabalhadores porque concentrava resíduos com algum valor de revenda, como papel, papelão, metais, plásticos e outros materiais reaproveitáveis.
Segundo registros do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, moradias de catadores já ocupavam a região na década de 1960. A proximidade com o depósito de resíduos permitia que os trabalhadores reduzissem os custos de deslocamento e permanecessem perto da fonte de renda.
A formação da comunidade ocorreu em um contexto de crescimento acelerado do Distrito Federal. Brasília havia sido inaugurada em 1960, mas a expansão urbana rapidamente ultrapassou os limites do Plano Piloto. Trabalhadores que participaram da construção da capital e famílias atraídas por oportunidades de emprego passaram a ocupar diferentes áreas do território.
Na Estrutural, essa ocupação ocorreu em uma área que, inicialmente, não havia sido planejada como bairro residencial. A ausência de infraestrutura regular, como pavimentação, rede de esgoto e equipamentos públicos, marcou os primeiros anos da comunidade.
A influência da Via Estrutural
A construção e a abertura da DF-095 tiveram papel importante na configuração da região. A rodovia passou a conectar áreas como a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, Taguatinga, Ceilândia e a BR-070, criando um eixo de circulação entre o centro de Brasília e outras partes do Distrito Federal.
O nome da cidade deriva justamente da via que corta a região. A estrada facilitou o acesso ao local e contribuiu para a expansão da ocupação, que cresceu ao lado do depósito de resíduos e nas proximidades do Setor Complementar de Indústria e Abastecimento, conhecido pela sigla SCIA.
Em 1989, o SCIA foi criado em frente à área ocupada. Naquele período, havia previsão de remoção dos moradores para outro local, mas as tentativas não avançaram. A comunidade continuou a crescer e passou a ser conhecida como Invasão da Estrutural.
No início dos anos 1990, o número de moradias aumentou, consolidando uma ocupação que já não podia ser tratada apenas como um acampamento temporário de trabalhadores. A presença de famílias, comércio e relações comunitárias tornou a área parte permanente da dinâmica urbana do Distrito Federal.
Da invasão à Vila Estrutural
Com o crescimento da ocupação, a região passou a ser chamada de Vila Estrutural e ficou vinculada administrativamente à Região Administrativa do Guará. A mudança de nome não significou, naquele momento, a solução dos problemas urbanos, mas refletiu a consolidação territorial da comunidade.
A história da cidade também foi marcada pela organização dos moradores e pela reivindicação de serviços básicos. A comunidade precisava de escolas, atendimento de saúde, transporte, iluminação pública, saneamento, segurança e infraestrutura viária.
O reconhecimento institucional ocorreu em janeiro de 2004, quando a Câmara Legislativa do Distrito Federal registrou a criação do Setor Complementar de Indústria e Abastecimento por meio da Lei nº 3.315. O SCIA foi transformado na Região Administrativa XXV, tendo a Vila Estrutural como sua sede urbana.
A criação da Região Administrativa representou uma mudança administrativa importante. A área passou a ter uma estrutura própria de gestão pública, embora muitos desafios acumulados ao longo de décadas permanecessem presentes.
A data oficial de aniversário da Cidade Estrutural é 19 de janeiro. A comemoração está relacionada ao processo de reconhecimento e consolidação da comunidade como unidade urbana do Distrito Federal.
O lixão e a identidade da comunidade
Durante décadas, o antigo lixão foi o principal elemento associado à imagem da Estrutural. O depósito recebia resíduos de várias regiões do Distrito Federal e funcionava a céu aberto, sem as condições ambientais e sanitárias exigidas para um aterro sanitário.
Para os moradores, no entanto, o local também representava trabalho e sobrevivência. A atividade dos catadores movimentava uma cadeia de coleta, separação e comercialização de materiais recicláveis. Muitas famílias dependiam diretamente da renda obtida com os produtos retirados do lixo.
Essa relação produziu uma contradição central na história da cidade. O lixão era fonte de problemas ambientais, riscos à saúde e degradação do solo, mas também sustentava economicamente uma parcela significativa da população local.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios informou que a desativação do depósito era objeto de medidas judiciais desde 1996. A preocupação envolvia tanto a recuperação ambiental da área quanto a garantia de direitos dos trabalhadores que atuavam no local.
O fechamento do antigo lixão
O encerramento das atividades ocorreu em 20 de janeiro de 2018. A data marcou o fim do recebimento de resíduos domiciliares no chamado Aterro Controlado do Jóquei, nome oficial usado pelo poder público para o local que ficou conhecido como lixão da Estrutural.
O fechamento foi resultado de um processo iniciado anos antes e relacionado à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que determinou a substituição dos lixões por formas ambientalmente adequadas de disposição final dos rejeitos.
Antes da desativação, o Distrito Federal iniciou a operação do Aterro Sanitário de Brasília, entre Ceilândia e Samambaia. A nova estrutura passou a receber os resíduos que antes eram encaminhados ao depósito da Estrutural.
O Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal informou que a transição envolveu a contratação de cooperativas, a criação de centros de triagem e medidas de compensação financeira para parte dos catadores. O objetivo era reduzir o impacto da mudança e integrar os trabalhadores ao sistema formal de recuperação de resíduos.
A transição, porém, não eliminou todos os efeitos sociais do fechamento. A renda dos catadores passou a depender de contratos, cooperativas, instalações de triagem e da quantidade de materiais recebidos. A mudança também exigiu adaptação às novas regras de trabalho e às condições dos galpões.
Catadores e reciclagem após 2018
Depois do fechamento, cooperativas formadas por trabalhadores que atuavam no antigo lixão foram encaminhadas para galpões e instalações de recuperação de resíduos. Nesses espaços, os materiais passaram a ser separados em condições diferentes das encontradas no depósito a céu aberto.
Relatórios do SLU registram a atuação de cooperativas originárias do antigo lixão da Estrutural em estruturas destinadas à triagem, prensagem, enfardamento e comercialização de recicláveis. O trabalho dos catadores passou a ser relacionado de forma mais direta à política de coleta seletiva e recuperação de resíduos sólidos.
Essa transformação mudou o papel da reciclagem na cidade. Antes associada principalmente à sobrevivência individual no lixão, a atividade passou a ser apresentada também como serviço ambiental e parte da gestão pública de resíduos.
A separação dos materiais reduz a quantidade de resíduos encaminhados aos aterros e permite o reaproveitamento de produtos que ainda possuem valor econômico. Para os catadores, a formalização pode ampliar a segurança da atividade, mas também depende de contratos, equipamentos, organização coletiva e mercado para a venda dos recicláveis.
Urbanização e novos equipamentos públicos
A transformação da Estrutural não se limitou ao encerramento do lixão. Ao longo dos anos, a região recebeu equipamentos e serviços públicos que contribuíram para sua consolidação como área urbana.
Entre os espaços educacionais está o campus do Instituto Federal de Brasília no SCIA. A unidade ampliou a oferta de educação profissional e tecnológica para moradores da região e de áreas próximas.
Também foram implantadas escolas, unidades de atendimento à saúde, equipamentos esportivos, áreas comerciais e estruturas de atendimento social. Esses serviços passaram a fazer parte da vida cotidiana de uma comunidade que cresceu a partir de uma ocupação inicialmente não planejada.
A regularização fundiária permaneceu como uma das questões centrais. Em diferentes momentos, o poder público promoveu ações para reconhecer lotes, organizar o sistema viário e garantir segurança jurídica aos moradores. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Distrito Federal registra a Estrutural entre as áreas que receberam medidas de regularização e entrega de documentos.
A urbanização também trouxe novas atividades econômicas. O comércio local se expandiu, assim como a prestação de serviços e os pequenos negócios. Essa diversificação reduziu a dependência direta de parte dos moradores em relação ao trabalho no antigo lixão, embora a reciclagem continue ligada à identidade econômica da região.
Uma cidade formada por diferentes histórias
A história da Cidade Estrutural não pode ser resumida à existência do lixão. A região foi construída por trabalhadores, famílias, lideranças comunitárias, comerciantes, estudantes e profissionais que participaram de sua transformação.
As primeiras moradias surgiram em torno de uma atividade de sobrevivência. Com o tempo, a ocupação ganhou ruas, comércio, escolas, serviços e instituições. O que era visto apenas como uma área de descarte passou a ser reconhecido como uma comunidade urbana com demandas e características próprias.
A trajetória da Estrutural também revela aspectos mais amplos da formação de Brasília. A capital foi planejada a partir de um projeto urbano moderno, mas seu crescimento produziu áreas que se desenvolveram fora do desenho original. A cidade surgiu, em parte, como resposta às desigualdades de acesso à moradia, ao trabalho e à infraestrutura.
O fechamento do lixão representou uma mudança ambiental necessária, mas também mostrou que transformações urbanas precisam considerar a vida das pessoas que dependem dos territórios modificados. Na Estrutural, a passagem do depósito a céu aberto para um sistema de triagem e destinação de resíduos alterou práticas de trabalho e abriu novas possibilidades, sem apagar os desafios sociais acumulados.
Hoje, a região integra oficialmente o Distrito Federal e continua a construir sua identidade entre a memória dos catadores, a presença da Via Estrutural, a expansão urbana de Brasília e os esforços de recuperação ambiental. Sua história é, portanto, a de uma comunidade que nasceu à margem do planejamento formal e se tornou parte permanente da capital brasileira.