segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Santa Maria (DF) ganha destaque entre as regiões de Brasília

Santa Maria (DF) deixou de ser uma área rural vinculada ao Gama para se consolidar como uma das regiões administrativas mais populosas e estratégicas de Brasília. A história da cidade combina política habitacional, expansão urbana, diversidade cultural e crescimento econômico.

Santa Maria (DF) ganhou espaço no mapa de Brasília a partir de uma política de ocupação urbana voltada principalmente ao atendimento de famílias de baixa renda. Mais de três décadas depois, a região administrativa se consolidou como uma das áreas mais populosas do Distrito Federal e passou a desempenhar funções importantes na moradia, no comércio, na indústria e na logística.

Localizada na porção sul do Distrito Federal, Santa Maria é identificada oficialmente como Região Administrativa XIII. A área fica próxima ao Gama, ao Park Way, ao Jardim Botânico e aos municípios goianos que integram a região metropolitana de Brasília. Essa posição contribui para os deslocamentos diários de moradores e trabalhadores entre o Distrito Federal e cidades como Valparaíso de Goiás, Novo Gama e Cidade Ocidental.

De acordo com a PDAD-A 2024, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, Santa Maria tinha população urbana estimada em 121.635 pessoas. O levantamento considera informações disponíveis até 3 de julho de 2025 e aponta idade média de 33,1 anos entre os moradores.

Da área rural à criação da região administrativa

Antes de se tornar uma cidade integrada à estrutura administrativa de Brasília, Santa Maria fazia parte da área rural do Gama. O território era ocupado por núcleos rurais, áreas de preservação, instalações militares e propriedades ligadas à produção agrícola.

A história mais antiga da região está relacionada à ocupação do território que hoje forma o Distrito Federal e parte do Entorno. O espaço pertencia ao estado de Goiás antes da criação de Brasília e já apresentava ocupação desde o século XVIII. Estudos reunidos pelo IPEDF citam referências à formação do Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia, em 1746, além da ocupação de áreas próximas aos rios Santa Maria, Alagados, Saia Velha e Ponte Alta entre 1763 e 1778.

Com a construção e a consolidação da capital federal, o crescimento populacional trouxe novas demandas por moradia. Na década de 1990, o Governo do Distrito Federal criou um programa de assentamento destinado a famílias de baixa renda e à reorganização de ocupações dispersas ou irregulares em diferentes pontos do território.

Foi nesse contexto que Santa Maria começou a ser estruturada como núcleo urbano. A criação da região administrativa ocorreu por meio da Lei nº 348, de 4 de novembro de 1992, posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 14.604, de 10 de fevereiro de 1993. A Administração Regional foi criada pela Lei nº 423, de 23 de março de 1993.

A data de 10 de fevereiro passou a ser associada ao aniversário oficial da cidade. A formação urbana inicial ocorreu nas quadras 200 e nas quadras 308, 309 e 310. Em seguida, a ocupação avançou para outras áreas planejadas, acompanhando a abertura de vias, a instalação de serviços e a construção de equipamentos públicos.

Urbanização planejada e expansão dos bairros

O projeto urbano de Santa Maria foi organizado em torno de dois eixos principais: as avenidas Alagado e Santa Maria. Paralelas entre si, as vias funcionam como referências de circulação e concentram parte das atividades comerciais e dos serviços locais.

A cidade foi dividida em setores e áreas residenciais que passaram a reunir diferentes perfis de ocupação. Entre eles estão Santa Maria Norte, Santa Maria Sul, Santa Maria Centro, o Residencial Santos Dumont, o Setor Habitacional Ribeirão, conhecido como Condomínio Porto Rico, o Setor Habitacional Meireles, também chamado de Total Ville, além da Cidade Nova e do Polo de Desenvolvimento Juscelino Kubitschek, o Polo JK.

O crescimento não ocorreu de forma uniforme. As primeiras áreas receberam infraestrutura básica gradualmente, enquanto novos parcelamentos e condomínios ampliaram a mancha urbana. A expansão trouxe escolas, unidades de saúde, comércio, transporte, espaços esportivos e equipamentos de atendimento social, mas também aumentou a necessidade de investimentos permanentes em mobilidade, saneamento, drenagem e urbanização.

Em 2024, a pesquisa do IPEDF registrou 46.953 domicílios ocupados na região. As casas representavam 83,6% das moradias, enquanto os apartamentos correspondiam a 16,4%. No mesmo levantamento, 66,6% dos domicílios foram classificados como próprios e já quitados, e 23,2% estavam alugados.

Uma população formada por diferentes origens

A identidade de Santa Maria foi construída por moradores que chegaram ao Distrito Federal em diferentes momentos e por famílias nascidas na própria capital. Segundo a PDAD-A 2024, 61,4% dos residentes declararam ter nascido no Distrito Federal.

Entre os moradores que vieram de outras unidades da Federação, o Maranhão apareceu com o maior percentual individual de origem, com 7,3%. Considerando as grandes regiões brasileiras, o Nordeste concentrava 63,4% dos residentes não nascidos no Distrito Federal.

Esses dados ajudam a explicar a diversidade cultural da região. A cidade reúne famílias com trajetórias ligadas à migração para Brasília, ao trabalho na construção civil, ao serviço público, ao comércio, à indústria e às atividades de transporte. O tempo médio de moradia no Distrito Federal era de 25,7 anos, enquanto o tempo médio na própria região administrativa chegava a 16,6 anos.

A permanência prolongada de muitas famílias contribuiu para a criação de redes comunitárias, associações, grupos religiosos, iniciativas culturais e atividades comerciais próprias. Santa Maria deixou de ser apenas uma área de expansão habitacional e passou a desenvolver uma vida urbana com referências e dinâmicas locais.

O papel do Polo JK na economia

Um dos principais fatores que ampliaram a importância de Santa Maria foi a implantação do Polo de Desenvolvimento Juscelino Kubitschek. Localizado nas proximidades da BR-040, o polo reúne empresas com atuação industrial, comercial e logística.

A localização é estratégica porque conecta a região sul do Distrito Federal aos municípios do Entorno e às áreas centrais de Brasília. A BR-040 funciona como um dos principais corredores rodoviários de ligação entre a capital federal, Goiás e outras áreas do país. Esse eixo favorece a circulação de mercadorias, a instalação de centros de distribuição e a atividade de empresas que dependem do transporte rodoviário.

O Polo JK também contribuiu para reduzir a dependência exclusiva do Plano Piloto e de outras regiões centrais na oferta de empregos. Embora parte dos moradores ainda se desloque diariamente para trabalhar em outras áreas do Distrito Federal, o desenvolvimento de atividades econômicas em Santa Maria ampliou a presença de empregos e serviços próximos às áreas residenciais.

O crescimento econômico, porém, não elimina os desafios urbanos. A expansão de empresas e moradias exige planejamento para evitar conflitos entre tráfego pesado, circulação de ônibus, deslocamentos de pedestres e ocupação residencial. Também demanda fiscalização ambiental, manutenção de vias e melhoria da conexão com o transporte público.

Deslocamentos e integração com Brasília

Santa Maria mantém uma relação intensa com o restante do Distrito Federal e com os municípios goianos vizinhos. A proximidade com o Gama, com a região da Saída Sul e com a BR-040 facilita a integração regional, mas também aumenta a pressão sobre as principais vias nos horários de pico.

A pesquisa do IPEDF mostra que a população se desloca para diferentes regiões em busca de trabalho, estudo, saúde e serviços especializados. Na área da saúde, Santa Maria foi a última localidade procurada por 53,8% dos entrevistados que informaram ter realizado atendimento. O Plano Piloto apareceu em seguida, com 20,7%, e o Gama, com 11,6%.

Na educação, o levantamento apontou que 48,3% dos estudantes utilizavam o deslocamento a pé entre a casa e a escola. O ônibus era o principal meio para 26,9%, enquanto o automóvel correspondia a 13,9%. Os números refletem a presença de escolas nas áreas residenciais, mas também mostram a importância da mobilidade para uma população numerosa e distribuída em diferentes setores.

Áreas ambientais e paisagem do Cerrado

Apesar da urbanização, Santa Maria conserva áreas de importância ambiental e paisagens características do Cerrado. A região possui áreas de vegetação nativa, cursos d’água, parques e terrenos associados a instalações militares e núcleos rurais.

Entre os espaços citados no diagnóstico do IPEDF estão o Parque Ecológico de Santa Maria e o Parque Recreativo do Gama, conhecido como Prainha. A região também está relacionada às sub-bacias dos rios Alagado, Santa Maria, Saia Velha e Santana.

A presença desses recursos naturais influencia a ocupação do território e impõe limites ao crescimento urbano. A preservação das áreas de cerrado, das matas ciliares e das nascentes é importante tanto para a proteção da biodiversidade quanto para a segurança hídrica e a redução de impactos causados por erosão, assoreamento e impermeabilização do solo.

O abastecimento de água da região está ligado ao sistema do Rio Descoberto, com tratamento realizado na Estação de Tratamento de Água Rio Descoberto. A relação entre expansão urbana, proteção ambiental e disponibilidade de água é um dos temas permanentes no planejamento de Santa Maria e de outras regiões administrativas do Distrito Federal.

Patrimônio, lazer e identidade local

Além da função residencial e econômica, Santa Maria reúne equipamentos de esporte, cultura e convivência. O Centro Olímpico e os serviços de convivência e fortalecimento de vínculos são exemplos de estruturas voltadas à prática esportiva, ao atendimento social e à integração comunitária.

Entre os pontos conhecidos da região está o Monumento Solarius, uma escultura de grandes dimensões popularmente chamada de “Chifrudo”. A obra se tornou uma referência visual da área e integra o conjunto de elementos que ajudam a formar a identidade de Santa Maria.

A memória local também está presente nas avenidas, nas quadras, nas feiras, nas igrejas, nos espaços esportivos e nas áreas comerciais que cresceram junto com a cidade. Como ocorre em outras regiões de Brasília, a construção da identidade urbana depende da combinação entre planejamento estatal, iniciativa dos moradores e criação de espaços de convivência.

O lugar de Santa Maria no Distrito Federal

A trajetória de Santa Maria mostra como Brasília continuou a se transformar depois da inauguração da capital. A região nasceu de uma política de assentamento, cresceu com a expansão habitacional e passou a exercer funções econômicas e logísticas que ultrapassam os limites do bairro residencial.

Com mais de 121 mil moradores, uma população relativamente jovem, conexão com importantes rodovias e presença do Polo JK, Santa Maria ocupa posição relevante na porção sul do Distrito Federal. Ao mesmo tempo, a região ainda precisa lidar com desafios comuns às áreas de crescimento acelerado: mobilidade, oferta de serviços públicos, urbanização de novos setores, preservação ambiental e geração de empregos.

O destaque alcançado por Santa Maria entre as regiões de Brasília está, portanto, ligado à combinação de história, escala populacional, localização e capacidade de transformação. A cidade deixou de ser apenas um núcleo criado para acomodar famílias e se consolidou como uma das principais referências urbanas do sul do Distrito Federal.