sábado, 19 de setembro de 2026
Cidades

Santa Maria (RS): infraestrutura, emprego e expansão urbana ao longo da história

A história de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, revela como a ferrovia, as instituições militares, a UFSM e a posição estratégica no centro do Estado influenciaram a infraestrutura, o emprego e a expansão urbana do município.

A história de Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul, está diretamente ligada à sua posição geográfica. O município se consolidou como ponto de circulação de pessoas, mercadorias, serviços e instituições, formando uma estrutura urbana influenciada por diferentes ciclos econômicos. A ferrovia, a presença militar, a educação superior e, mais recentemente, as rodovias ajudam a explicar a relação entre infraestrutura, emprego e expansão urbana na cidade.

Segundo o IBGE, Santa Maria tinha 271.735 habitantes no Censo 2022. O município possui uma área territorial de 1.780,194 quilômetros quadrados e densidade demográfica de 152,64 habitantes por quilômetro quadrado. Esses dados refletem a dimensão de um território que reúne uma área urbana consolidada, distritos e zonas rurais com características econômicas distintas.

Da formação do município à chegada da ferrovia

A ocupação de Santa Maria remonta ao fim do século 18, quando a região passou a fazer parte das estratégias de demarcação territorial entre os impérios português e espanhol. A localidade foi elevada à categoria de vila em 17 de maio de 1858, data que permanece associada à emancipação político-administrativa do município. Em 1876, Santa Maria foi elevada à categoria de cidade.

A ferrovia representou uma transformação decisiva. Os primeiros trilhos chegaram à região na década de 1880, e o transporte ferroviário de cargas começou a operar em 1885. A posição de Santa Maria no centro do Estado favoreceu a ligação entre Porto Alegre, a fronteira oeste e outras áreas do Rio Grande do Sul. O município passou a funcionar como entroncamento ferroviário e ampliou sua importância comercial e logística.

O impacto da ferrovia não se limitou ao transporte. A atividade criou empregos, estimulou o comércio e atraiu trabalhadores, empresas e famílias. A formação de espaços como a Vila Belga, a Gare da Estação Férrea e áreas residenciais próximas aos trilhos expressa esse período. Estudos da Universidade Federal de Santa Maria destacam que a infraestrutura ferroviária influenciou o traçado urbano e contribuiu para a expansão de serviços, escolas, moradias e atividades comerciais.

Infraestrutura e presença militar

Ao longo do século 20, a presença das Forças Armadas também contribuiu para a organização territorial de Santa Maria. A instalação de unidades militares em áreas afastadas do núcleo central exigiu a ampliação de vias, redes de energia, transporte e serviços públicos. Com isso, a cidade passou a ocupar novos espaços e reforçou sua função estratégica no Sul do Brasil.

Esse processo ocorreu paralelamente ao declínio gradual do transporte ferroviário como principal motor econômico. A redução da atividade ferroviária modificou a dinâmica de bairros e áreas que haviam crescido em torno das estações, oficinas e armazéns. Parte desse patrimônio permanece como referência histórica, enquanto a circulação de pessoas e cargas passou a depender cada vez mais do sistema rodoviário.

A universidade e a mudança no perfil do emprego

A criação da Universidade Federal de Santa Maria, em 1960, marcou outra etapa do desenvolvimento local. A instituição foi a primeira universidade federal criada no interior do Brasil e ajudou a consolidar a cidade como polo regional de educação, ciência, saúde e serviços especializados.

A expansão da UFSM alterou o perfil da economia urbana. Além dos empregos diretamente ligados ao ensino, à pesquisa e à administração, a universidade estimulou atividades em áreas como comércio, aluguel de imóveis, alimentação, transporte, tecnologia e serviços profissionais. O fluxo de estudantes e servidores também reforçou a demanda por moradia e contribuiu para o crescimento de áreas como Camobi.

A economia de Santa Maria passou, assim, a combinar comércio, serviços, atividades educacionais, setor público, defesa, construção civil, indústria e produção agropecuária. Em 2025, conforme levantamento divulgado pela Prefeitura com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o município abriu 966 vagas formais entre janeiro e abril. Serviços e comércio concentraram a maior parte do saldo, seguidos por indústria, construção e agropecuária.

Expansão urbana e desafios de planejamento

O crescimento urbano ocorreu em diferentes direções e nem sempre foi acompanhado pela mesma velocidade de implantação da infraestrutura. A expansão de loteamentos, a ocupação de áreas periféricas e a valorização de regiões próximas a universidades, quartéis, rodovias e centros comerciais aumentaram a pressão sobre o sistema viário, o transporte coletivo, a drenagem e o saneamento.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Territorial, instituído pela Lei Complementar nº 118/2018 e alterado posteriormente, estabelece diretrizes para ordenar o uso do solo e orientar o crescimento do município. Entre os objetivos do planejamento estão a ocupação de áreas já dotadas de infraestrutura, a redução da expansão desnecessária do perímetro urbano e a melhoria da mobilidade.

O planejamento municipal também passou a incorporar diagnósticos sobre cursos d’água, áreas de risco, ocupação do solo, cobertura vegetal e infraestrutura existente. Esse tipo de levantamento é importante porque a expansão urbana não envolve apenas novas moradias. Ela exige redes de água e esgoto, drenagem, pavimentação, transporte, escolas, unidades de saúde e preservação ambiental.

Rodovias e a Santa Maria contemporânea

Na década de 2020, a infraestrutura rodoviária ganhou destaque com as obras da Travessia Urbana, que abrangem trechos das BR-158, BR-287 e BR-392. Segundo a Prefeitura, a intervenção recebeu investimentos superiores a R$ 450 milhões e foi planejada para melhorar o tráfego local e de longa distância, além de ampliar a segurança de motoristas e pedestres.

O projeto reforça uma característica histórica de Santa Maria: a cidade continua funcionando como ponto de conexão regional. A diferença é que, enquanto a ferrovia estruturou o crescimento entre o fim do século 19 e boa parte do século 20, as rodovias assumiram papel central na circulação contemporânea de mercadorias, trabalhadores e serviços.

Santa Maria chegou ao século 21 com uma economia diversificada, mas ainda dependente da capacidade de articular infraestrutura, formação profissional e planejamento territorial. A expansão urbana pode ampliar oportunidades de emprego e moradia, mas também aumenta os custos de manutenção da cidade. O desafio histórico permanece: transformar sua posição estratégica e sua rede de instituições em desenvolvimento equilibrado, com serviços públicos compatíveis com o crescimento e preservação da memória urbana construída pela ferrovia, pela universidade e pela vida comunitária.